?Em 1585 a câmara de São Paulo justificou, em carta ao capitão-mor, a sua disposição para assaltar carijós: precisava de escravos, sem os quais a terra e a gente seriam sempre pobres. Viveriam então, ao lado do Tietê, em 300 aldeias, 30.000 tupiniquins, segundo o relato de Techo. Seis anos decorridos, inexistiam todas aquelas aldeias?
Hernâni Donato, Dicionário das Batalhas Brasileiras.
?A destruição, os tormentos, as violências, as injustiças, as crueldades e os assassinatos perpetrados no seio dessas gentes são tão grandes, tão públicos e tão notórios, que as lágrimas e os prantos e o sangue de tantos inocentes chegam até o mais alto dos céus... e já estão sendo ouvidos em todo mundo e soam aos ouvidos de todas as nações estrangeiras, por mais horríveis e desumanos que possam ser; de onde se seguirá para os que ouvem um grande escândalo, um grande horror e abominação e ódio e infâmia que serão votados ao povo e aos reis de Espanha: de onde com o tempo poderiam resultar grandes amarguras?
Bartolomé de las Casas, 1542
?Nem cinco anos se passaram desde minha primeira visita... Quem quer que venha para cá agora não mais encontrará o lugar agradável que eu conheci. O fedor pestilencial de uma pseudo-civilização caiu sobre o povo marrom que não tem direitos. Como uma nuvem de gafanhotos aniquiladores, a quadrilha desumana de barões da borracha continua a avançar. Os colombianos já se instalaram na cabeceira do Kuduyari e carregam consigo meus amigos para os seringais assassinos. Brutalidade crua, maus-tratos e assassinato são a ordem do dia. No baixo Cairary, os brasileiros não são melhores. As aldeias indígenas estão desoladas, suas casas foram reduzidas a cinzas e seus jardins, despojados das mãos que cuidam deles, foram tomados pela selva.?
?Assim, uma raça vigorosa, um povo dotado de um dom magnífico de brilhante intelecto e gentil disposição será reduzido a nada. Material humano capaz de desenvolvimento será aniquilado pela brutalidade desses modernos bárbaros da cultura?.
Theodor Koch-Grünberg, 1910
O estado ? Roraima possui uma área de 230.104 km² e uma população de 324.397 habitantes, segundo o censo de 2000, a grande maioria dos quais - 200.568 ? moram na capital, Boa Vista. 77.381 pessoas moram na zona rural. Roraima fez parte do estado do Amazonas até 1943, quando o ditador Getúlio Vargas criou o território federal do Rio Branco, por razões de segurança nacional, em plena guerra com a Alemanha. O que não consegui entender é o porque de a criação deste território ser uma questão de segurança nacional, já que Roraima não tem fronteira marítima e se limita com 2 países amigos, Venezuela e Guiana (à época dominada pelo Reino Unido, aliado do Brasil na guerra).
O nome foi mudado para Roraima em 1962 depois que várias pessoas que iam para o território acabavam parando em Rio Branco, capital do Acre, a muitas centenas de quilômetros de distância. Mesmo elevada à condição de território, a região permaneceu isolada até a ditadura militar, mais especificamente o governo Médici, com sua obsessão pela ?integração? da Amazônia. Em 1950, tinha apenas 18.116 habitantes, em 1970 tinha 41.638, com apenas 2 cidades. Em 1980 a população já atingia 80.000 habitantes.
Em 1988, a Constituinte aprovou a transformação do território em estado, o que lhe garantiu uma bancada de 3 senadores e 8 deputados no Congresso Nacional. São Paulo, em comparação, com uma população de 37 milhões, tem o mesmo número de senadores e 70 deputados. Um senador em Roraima se elege com menos votos que um deputado em São Paulo. Essa discrepância garantiu aos políticos locais um poder de barganha completamente desproporcional ao contingente eleitoral do estado ? o que se traduz por um generoso aporte de verbas federais, entre outras benesses. É assim que o colunista de um jornal local descreve as conseqüências desse modelo:
?...trabalhadores, empregadores, empresas, todos em Roraima se habituaram nos últimos sessenta anos a depender exclusivamente do governo. Este tem sido, desde sempre, o único provedor da economia local. Paga os salários à quase totalidade da população economicamente ativa, distribui privilégios para alguns que nada produzem, financia as empresas e ainda enriquece aqueles que, por esperteza, laços familiares ou conchavos, fazem parte das panelinhas que se sucedem na transformação de patrimônio público em privado. É assim que sempre funcionou a distribuição de renda em Roraima, tudo bancado pelo poder público.?
?Fica muito claro o tamanho do equívoco em que se construiu esse estado quando, pela primeira vez, o governo decide regularizar a situação dos servidores públicos e, ao realizar concurso, surpreende o volume de candidatos de outras regiões que, em condições de melhor preparo, disputam as vagas.?
Quanto aos políticos locais, transcrevo trecho de artigo no site do CIMI:
?Jucá tem se notabilizado na década de 80, quando foi presidente da Funai (86 a 87) por trair os direitos desses povos ao escancarar as terras indígenas aos grandes interesses madeireiros e minerais, particularmente em Rondônia. Isso fez com que esses interesses em gesto de gratidão lhe garantissem eleições subseqüentes no Estado mais anti-indígena do país: Roraima.? (
http://www.cimi.org.br/opiniao/16052003.htm). Jucá é o atual Senador por Roraima Romero Jucá, advogado pernambucano e ex-presidente da Funai no governo Sarney.
Esta outra notícia, do site do Instituto Socioambiental (
http://www.socioambiental.org/website/noticias/indios/20000218b.htm), do ano 2000, também nos dá uma idéia de como são os políticos de Roraima: ?O governador do Estado de Roraima, Neudo Campos (PPB), está ameaçando fechar 138 escolas indígenas dentro da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, caso esta seja homologada em área única, como querem os povos Makuxi, Wapixana, Ingarikó e Taurepang. A informação foi repassada pelo Conselho Indígena de Roraima (CIR) em nota divulgada hoje, 18 de fevereiro. Campos formalizou a ameaça, em reunião com os "líderes" das organizações Sodiur (Sociedade dos Índios Unidos de Roraima) e Arikon (Associação dos Povos Indígenas dos rios Quinô e Cotingo), entidades aliadas do governador, que defendem o retalhamento da área?.
A maior parte do estado é coberta pela floresta amazônica. O leste e o extremo norte, onde se situa a capital, Boa Vista, são regiões da Grande Savana, conhecida em Roraima por ?lavrado?, que também se estende por parte da Venezuela. A paisagem da savana é espetacular, recortada por montanhas, parece um cenário ?jurássico?. A Venezuela já começou a aproveitar o potencial turístico da região, mas no Brasil, nada ainda.
A região poderia ser uma das mais ricas do mundo, se dependesse menos dos recursos federais, e explorasse o ecoturismo e seus fabulosos recursos naturais de maneira sustentável. No entanto, políticos, empresários e fazendeiros preferem acusar os índios de serem os responsáveis pelo marasmo econômico da região. Por que será?
Os índios são a minoria mais marginalizada e sem voz na sociedade nacional. Roraima é o estado com a maior proporção de população indígena no país ? são 40.000 pessoas no total, de diversos povos, pertencentes aos troncos lingüísticos Carib e Arwak ? Macuxi, Wapixana, Yanomami, Taurepang, Waimiri, etc. ? um caso impressionante de resistência, pois desde o séc. XVIII os índios de Roraima foram semi-escravizados nas fazendas de gado, massacrados após rebeliões e dizimados por doenças. O etnólogo alemão Koch-Grunberg, pioneiro na pesquisa do modo de vida dos índios da região, faz uma narrativa sinistra do genocídio daquela gente, no início do séc. XX:
?...A poucas horas rio (Uraricoera) acima, na margem esquerda, vive o fazendeiro Bessa, um canalha pior que Quadros, muitas vezes assassino. Matou aleivosamente um colono branco, três índios Purukoto e um Makú; matou-os ajudado por cúmplices. Quando Galvão chegou aqui, neste lugar da ilha de Maracá havia muitos índios das tribos mais diversas. Bessa os desalojou de seus ranchos e de suas plantações, dizendo que o campo lhe pertencia. Em pleno inverno queimou-lhes as casas. A pobre gente fugiu para a mata, onde, por não estarem protegidos contra a umidade, contraíram febre, muitos morreram, em especial as crianças que levavam. Assim é que existem apenas tristes despojos das tribos ao redor de Maracá?.
Atualmente, o massacre continua, desta vez provocado pela bebida alcoólica. Quando eu estava num rancho às margens da BR-174, um índio de meia-idade veio me pedir que eu pagasse um copo de pinga.
Um estudo do Instituto Socioambiental comprovou de forma definitiva que as áreas indígenas de Roraima não eram de forma alguma superdimensionadas. Segundo o estudo, a população indígena de Roraima vivendo em aldeias era de 31.322 pessoas em 2000, correspondendo a 40,47% da população rural do estado que totalizava 77.381 pessoas. Ora, o total de terras indígenas no estado corresponde a 46,17% do território do estado, o que demonstra ser absolutamente justa a quantidade de terras alocada aos indígenas, ainda mais considerando o seu uso extensivo da terra, e principalmente, a justiça de ter o usufruto de uma terra habitada por eles desde tempos imemoriais.
A título de comparação, embora o Reino Unido possua uma área equivalente à de Roraima (241,590 km²), abriga uma população de 60 milhões de pessoas. O óbvio ululante é que mesmo com 51,45% de áreas protegidas no estado, Roraima poderia abrigar uma população várias vezes superior à existente, respeitando os direitos dos indígenas e preservando o ambiente.
O mais absurdo argumento contra as reservas indígenas é de que constituem uma ameaça à soberania nacional. Em primeiro lugar, porque pressupõe serem os indígenas ? os mais brasileiros dos brasileiros, nas palavras de Rondon - inimigos do Brasil. Segundo, porque considera os indígenas como inferiores, já que, como inimigos do Brasil e ?não brasileiros?, não podem ser titulares dos mesmos direitos que os demais brasileiros. Esse argumento de ameaça à soberania é explicitamente racista. Aqueles que o defendem são basicamente os mesmos que vêem os habitantes dos morros do Rio de Janeiro como inimigos. É muito fácil fazer do índio e do negro favelado o bode expiatório para as mazelas desse país, além de muito cômodo para as elites reconhecidamente incompetentes e corruptas, as verdadeiras responsáveis pela crise brasileira conforme o senso comum. Os inimigos dos índios é que são a verdadeira ameaça à soberania nacional, pois são capazes de vender o país e as próprias mães por um punhado de dólares.
A cidade ? Boa Vista está situada às margens do Rio Branco, em pleno hemisfério norte. Em 1970 contava com apenas 16.720 habitantes. Um plano urbanístico foi implantado a partir de 1945. A cidade é em forma de leque, com avenidas largas que convergem para a Praça do Centro Cívico, grande como um parque. No centro da praça, uma estátua muito feia homenageando os garimpeiros, cuja rixa com os índios é histórica. O Palácio do governo, num estilo ?kitsch? que mistura vidros fumê com colunas gregas, se situa dentro da praça, e os demais edifícios importantes ficam ao redor da praça
Boa Vista pareceria com qualquer outra cidade média brasileira, não fosse pelos edifícios públicos monumentais e suntuosos, se bem que em minha opinião abusam dos vidros espelhados. Um dos prédios públicos mais luxuosos e modernos é o da Secretaria da Fazenda, e o mais modesto e acanhado ? a Secretaria da Educação.
As ruas e avenidas são bem asfaltadas, mas a maioria das calçadas é de barro, o que obriga o pedestre a andar no meio da rua, principalmente após os freqüentes temporais. O clima é quente e úmido, inclusive à noite. Quase todas as casas têm um pé de mangueira, que dá fruto o ano inteiro. A parte histórica da cidade fica às margens do rio, com alguns prédios antigos interessantes, ainda que modestos. A maioria está mal conservada.
A visita do Ministro ? no aeroporto de Boa Vista, há uma placa que diz muito sobre a história recente de Roraima. É a placa de inauguração do aeroporto, feita pelo presidente Médici em 1973.
Logo na saída do aeroporto, deparávamos com um outdoor enorme que dizia: ?querem matar o estado?. O outdoor foi colocado especialmente para a visita do Ministro Márcio Thomaz Bastos, que foi enviado a Roraima pelo para elaborar um ?parecer? sobre a homologação da área indígena de Raposa/Serra do Sol.
A rigor, a visita do Ministro nem precisava ter ocorrido. A Constituição de 88 ? a mesma que criou o estado de Roraima ? garantiu aos índios a posse de suas terras ancestrais. Toda discussão deveria em tese ter sido encerrada com a portaria do então ministro da Justiça Renan Calheiros, em 1998. A homologação só dependeria de uma simples assinatura do Presidente da República ? coisa que FHC preferiu empurrar com a barriga, e que seu sucessor ainda não fez. Qualquer outra decisão que não seja a homologação integral de Raposa/Serra do Sol é não apenas ilegal mas inconstitucional.
O Ministro se hospedou no principal hotel da cidade ? que tem apenas três estrelas ? e sua visita durou três dias. Na terça-feira, dia 10, o Ministro se reuniu com lideranças políticas do estado. Na quarta, fez uma visita à aldeia Maturuca, em Raposa, onde foi recebido por uma fila de índios vítimas da violência de colonos, posseiros e garimpeiros, vários deles feridos a bala.
Na quinta-feira foi à Casa Paulo VI, em Boa Vista, onde almoçou com os índios Yanomami. Assistiu a uma pajelança, onde o pajé recebeu espíritos vindos da neve, e começou a tremer de frio. O líder Davi Yanomami explicou o significado da pajelança e fez um discurso em que declarou apoio às reivindicações de seus irmãos de Raposa/Serra do Sol. Depois falou o Ministro, que garantiu que haveria uma solução rápida e que não prejudicaria os índios, ao contrário, os beneficiaria.
O final da visita se deu no auditório do Palácio da Cultura ? outro prédio monumental da praça cívica e cheio de vidros espelhados - onde foi ouvir os representantes da ?sociedade civil? de Roraima. Os índios e seus defensores estavam sentados à esquerda no auditório. Fazendeiros e políticos ficaram à direita. O Senador Jucá ficou no meio. Na mesa, além do Ministro, o Presidente da Funai, a Procuradora da República, o Presidente da OAB de Roraima e o governador Flamarion, recém-filiado ao PT.
Abro agora um parênteses para falar alguma coisa sobre os defensores e inimigos dos índios em Roraima. Entre os defensores, se destaca em primeiro lugar a igreja católica, que nem exige mais a conversão como ?retribuição?. Talvez por remorso pelos crimes cometidos no passado, não sei, mas o fato é que a Igreja é a defensora mais firme dos direitos dos índios no Brasil, e também dos sem-terra, dos operários, dos perseguidos pela ditadura. A ação da Igreja Católica no Brasil é totalmente distinta da de alguns outros países da América Latina. Na Venezuela, é aliada da oligarquia contra o povo.
A seguir, vêm algumas ONGs ? poucas ? quase todas nacionais. Fazem muito mais pelos índios e pela população em geral do que os políticos, e por isso atraíram o ódio e a inveja das elites ? mesmo porque a Igreja Católica seria um alvo demasiadamente poderoso para elas. Os funcionários da Funai também realizam um trabalho abnegado pelos índios, apesar escassez de recursos do órgão.
Há também a Polícia Federal e o Ministério Público Federal. Não por mera simpatia aos índios, mas simplesmente porque fazem cumprir a Constituição no estado. Isso já basta para atrair o ódio e a incompreensão dos poderosos locais. Graças à atuação desses órgãos federais, Roraima não é o faroeste que se vê com os Xukuru em Pernambuco, por exemplo. É verdade que vários índios foram assassinados nos últimos anos. Mas os casos vêm sendo investigados e os culpados têm sido punidos. E, ao contrário de Pernambuco e outras regiões onde advogados e padres também foram assassinados, a violência não se estende aos defensores dos índios, que podem realizar seu trabalho em condições relativamente tranqüilas, livres de ameaças e chantagens.
O bloco dos inimigos dos índios é formado pelas elites políticas e econômicas locais, sendo que os políticos, apesar de viverem brigando uns com os outros, se unem quando o assunto é combater os direitos indígenas.
Outro adversário dos direitos dos índios são algumas denominações evangélicas, inclusive alguns missionários norte-americanos. Alguns evangélicos são aliados dos índios. Mas vários combatem os indígenas, seja por oposição à Igreja Católica, seja para receber vantagens das elites e dos políticos locais, ou ainda porque têm interesse direto nas riquezas das terras indígenas ? seria o caso da sinistra MEVA, Missão Evangélica da Amazônia, vinculada à extrema-direita cristã dos EUA. Se forem verdade todas as acusações gravíssimas de homicídios, latrocínios, corrupção e genocídio que teriam sido praticados pela MEVA desde a sua fundação nos anos 40, então estamos diante de uma organização verdadeiramente maligna.
Segundo o livro ?Seja Feita a Vossa Vontade?, com mais de mil páginas, resultante de 18 anos de investigações dos jornalistas Gerard Colby e Charlotte Dennett, a MEVA seria produto de um plano da família Rockefeller para controlar as riquezas da Amazônia, convertendo ou exterminando os índios que viviam nas áreas ricas em minérios.
Em outro livro, ?Massacre?, das edições Loyola, o padre Silvano Sabatini acusa o coronel Thompson e o pastor Claude Lewitt, da MEVA, de serem os mandantes da brutal chacina e mutilação dos corpos do padre João Calleri e demais membros da sua expedição, encarregada de contatar os waimiri-atroari em 1968. Quando da denúncia do padre Sabatini, o crime ainda não havia prescrito e em conseqüência teve início uma ação criminal na Justiça Federal em Brasília. Infelizmente não consegui apurar qual teria sido o desfecho da ação.
Quando os políticos e as elites de Roraima acusam, sem prova alguma, as ONGs de serem a ponta-de-lança para a internacionalização da Amazônia, se inspiram no caso da MEVA. Ocorre que os crimes supostamente cometidos pela MEVA contaram com a complacência de autoridades, políticos e governantes, e tiveram mais repercussão nos Estados Unidos do que no Brasil, onde até hoje a missão atua, impune.
Completando a lista dos que se opõe aos direitos dos índios, figuram os principais órgãos de mídia de Boa Vista, a maioria vinculada aos políticos locais. E infelizmente, tamanha é a manipulação da mídia que a população de Boa Vista, embora boa parte dela seja de origem indígena, um povo amistoso, hospitaleiro e bom, se opõe à homologação em área contínua de Raposa/Serra do Sol. O estado carece de órgãos de mídia independentes.
Voltando ao debate no Palácio da Cultura: falaram, alternadamente, os defensores e os adversários da homologação de Raposa em área contínua, o orador seguinte alfinetando o anterior. Entre os defensores ? o bispo de Boa Vista, que falou que a opção da igreja sempre deve ser pelos oprimidos, e que por causa disso a igreja católica foi vítima de calúnias por parte da elite roraimense; as presidentes da CUT de Roraima e da associação de mulheres, um membro da Universidade Federal, entre outros, e Davi Yanomami, que acusou o governador de ter falado mentiras depois de uma visita à área Yanomami. O governador, cuja fala não estava programada, pediu a palavra e reconheceu que havia falado inverdades, mas não era mentiroso e que a culpa era de um assessor que lhe passou informações falsas. Foi novamente acusado de mentir por Davi.
Falaram contra a homologação: os líderes das associações de pecuaristas, de agricultores, dos rizicultores ? esse prometeu um caminhão de alimentos para o projeto Fome Zero, provocando aplausos em uns e risos em outros ? inclusive no Ministro. Todos adotaram o mesmo discurso: o extraordinário potencial econômico do estado, que estaria ameaçado pela grande extensão de reservas ambientais e indígenas, além de supostas arbitrariedades cometidas pela Funai, Incra e Ministério Público Federal contra fazendeiros estabelecidos há muito tempo.
Eu fiquei no balcão, observando a reação da platéia. Ninguém na platéia foi louco de cometer uma indelicadeza com os adversários na frente do Ministro, se bem que eu vi muita gente xingando baixinho, no balcão, os defensores da homologação.
Os discursos aplaudidos com mais entusiasmo ? pelos fazendeiros e jovens da elite roraimense, que constituíam a maioria no auditório ? foram de índios contrários à homologação, de entidades como a Sodiur, ligadas a igrejas evangélicas ? essa Sodiur aliás recebeu R$ 100.000,00 do governo do estado para combater a homologação em área contínua, segundo notícia em
http://www.indiosdiroraima.org/docs/26-01-02.htm . Especialmente aplaudido foi um ataque de um desses índios contra as ONGs. Na fala seguinte, uma representante das mulheres indígenas disse que as ONGs não faziam nada de errado, pelo contrário, eram as únicas que prestavam alguma assistência médica às mulheres e parturientes indígenas, coisa que o governo do estado não fazia. O Ministro encerrou o debate dizendo que se havia alguma coisa em comum em todas as falas era a insegurança causada pela indefinição em relação à área. Prometeu que a questão seria decidida ?com urgência? e que não prejudicaria ninguém. E assim terminou a viagem de ?inspeção? do Ministro a Roraima, mas a minha viagem continou por mais alguns dias. Abaixo falo sobre a viagem que fiz à Venezuela e minha estada em Roraima. Minha viagem à Venezuela ? a Venezuela fica a apenas 200 quilômetros de Boa Vista, e é inevitável que qualquer visitante da cidade se interesse em conhecer o país vizinho. A BR-174, que leva à Venezuela, é asfaltada e está em boas condições, com exceção do trecho próximo à fronteira, que tem alguns buracos, mas nada que cause problemas a qualquer automóvel que viaje a menos de 100 Km/hora.
A estrada é praticamente uma linha reta, cortando a Grande Savana. No início da estrada, uma ponte cruza um belíssimo rio que, na época da seca, tem uma praia freqüentada pela população de Boa Vista. A paisagem ao longo da estrada é deslumbrante ? uma planície com montanhas altíssimas no horizonte (onde me disseram que há várias cachoeiras), e com árvores isoladas, basicamente caimbés e buritizais ? os mesmos das veredas mineiras de Guimarães Rosa ? sempre acompanhando os cursos d?água, pois os frutos ao caírem são transportados pelas águas, e germinam no primeiro lugar em que param. Pude ver diversas espécies de animais ao longo da estrada ? urubus-rei (parentes do condor), carcarás, uma raposa morta atropelada. Na volta, uma nuvem de andorinhas de vários quilômetros ? talvez fossem pássaros migratórios.
Há várias malocas da reserva indígena São Marcos, que é cortada pela estrada. O linhão de Guri, que leva energia barata da Venezuela para Boa Vista, acompanha o trajeto. Chegando próximo à fronteira, o retão acaba e começamos a subir a serra de Pacaraima, a vegetação se torna mais densa, e surpresa, o clima começa a esfriar.
Bem na fronteira com a Venezuela, e ainda dentro da reserva São Marcos, se encontra a cidade de Pacaraima. A temperatura era de menos de 20 graus, comparado com os quase 35 de Boa Vista. A cidade possui uns 2.000 habitantes em sua área urbana. Dominando a paisagem, a bela mansão do ex-governador Neudo Campos, bem na divisa com a Venezuela. O clima ameno e a linda paisagem montanhosa tornam a cidade extremamente agradável. A cidade possui uma grande quantidade de lojas, abertas na época do real fraco, para atender os venezuelanos. A valorização do real prejudicou grandemente os comerciantes da cidade.
À noite, fui à uma festa na maloca Santo Antônio, logo depois da fronteira. Me disseram que antigamente os guardas da fronteira não tratavam muito bem os brasileiros, mas depois que Chávez foi eleito, o tratamento passou a ser da maior cordialidade. A festa ocorria uma vez por ano, era em homenagem ao padroeiro da aldeia, Santo Antônio, e estava cheia de brasileiros, de venezuelanos de Santa Elena, a cidade mais próxima, e de índios de várias aldeias. Esqueci de mencionar que os índios tanto na reserva São Marcos como no lado venezuelano se vestem como os brancos, adotaram vários de seus costumes, e falam português e espanhol, além da sua língua nativa.
A festa estava uma animação, apesar do friozinho gostoso que fazia. Havia várias barracas de comidas e de bebidas, e um grande barracão de sapé no estilo indígena onde se tocava dance music, techno, salsa, merengue e até funk carioca ? o DJ da festa morava em Santa Elena e era do Rio de Janeiro! Nunca vou me esquecer da visão surreal que eram as indiazinhas venezuelanas dançando ao som do Pocotó ? e dançavam direitinho. Era um grande congraçamento entre gente tão próxima apesar das origens tão distintas.
Na mesma noite, fui para Santa Elena de Uairén, que fica a poucos quilômetros de distância. A cidade é bonita e dispõe de uma ótima infra-estrutura turística, com hotéis, bares, restaurantes e casas noturnas. Grande parte da população, de 20.000 habitantes, é composta de brasileiros, tratados fraternalmente pelos naturais. Mesmo os brasileiros de Boa Vista falam o espanhol fluentemente, aliás, e gostam muito da música caribenha, assim como os venezuelanos adoram a música brasileira.
Em Santa Elena, um brasileiro pode ter a experiência única de encher o tanque do carro com menos de cinco reais ? isso porque a gasolina de lá é a mais cara da Venezuela. É por esse motivo que uma das grandes preocupações da polícia de Roraima é o tráfico de gasolina. Viajar de ônibus ou de automóvel pela Venezuela também é uma delícia. A estrada é um tapete, com várias camadas de asfalto.
O programa imperdível em Santa Elena é uma visita ao monte Roraima. As excursões ao monte duram pelo menos cinco dias, e vêm sendo feitas por um número crescente de turistas europeus e norte-americanos. Para quem não tem tanto tempo, há também as visitas de helicóptero, que pousam no topo do platô.
Eu tive que me contentar com uma viagem até as proximidades do monte. Nos dias claros, o monte Roraima é visível a centenas de quilômetros de distância - um tepuy gigantesco, com formas praticamente geométricas, um retângulo se estendendo por quase todo o horizonte. Enormes faixas prateadas pendem desde o topo do platô, balançando ao vento ? eram cachoeiras de centenas de metros de altura. Posso garantir que uma visão do monte Roraima é a cura para depressivos, melancólicos e suicidas em potencial.
Na volta, não pude chegar à Pedra Pintada, uma rocha gigantesca e com um formato curioso, com várias inscrições datadas de milhares de anos atrás, porque uma ponte que levava à pedra tinha caído.
Em Boa Vista, na praça do centro cívico, estava acontecendo nos fins de semana à noite a festa junina da prefeitura ? porque o governo do estado também tinha a sua, no parque Anauá, alguns dias depois. Em Roraima, como é regra no Brasil, os políticos são adeptos da política do ?pão e circo?. Ao invés de competirem sobre quem proporciona a melhor educação, a melhor saúde, o melhor plano habitacional, a melhor infra-estrutura, eles competem para fazer a melhor festa junina.
A praça, que é bem grande, estava cheia de gente. Eu fiquei circulando, observando a paisagem humana. Parecia com a da periferia das grandes cidades, com a diferença que muitos tinham feições indígenas. Ainda assim, não constituíam a maioria ? talvez 20, 30 por cento ? no estado mais indígena do Brasil. A maior parte da população são migrantes e seus filhos, principalmente do Maranhão, mas também de outros estados do Nordeste, do Amazonas e do Rio Grande do Sul. Negros, havia poucos.
Havia um palco para shows ? principalmente de forró e de axé - arquibancadas, um parque de diversões, barracas de jogos, todo tipo de atrações e divertimentos, um barracão do Sebrae com artesãos locais, uma grande quantidade de barracas de comida e de bebida.
O estado tem uma grande fartura de alimentos, principalmente de carne. Durante a minha estada, não vi nenhum mendigo ou indigente, apesar de que todos os garis e catadores de latinhas que trabalhavam na festa eram mulheres índias ? mais um sinal de como são as coisas por lá. Um dos pratos favoritos é a paçoca ? que não é de amendoim, mas uma mistura de farinha de mandioca, carne de sol e banana. Gostam muito também de sopa, apesar do calor.
Uma fumaça deliciosa saía das barracas, onde se fazia de tudo ? carne, lingüiça, macarrão, salsicha no molho, macaxeira, paçoca.
A festa estava muito animada, o povo comia, bebia, conversava, fazia compras, dançava, se divertia nos brinquedos, e eu tomando um banho de povo brasileiro.
E assim é Roraima, com um enorme potencial econômico e turístico ainda não realizado, uma natureza deslumbrante, um povo gentil, hospitaleiro, que insiste em ignorar as fronteiras artificialmente criadas à revelia do povo da região, primeiro por três impérios de triste memória ? português, espanhol e inglês, e depois pelas oligarquias nacionais incompetentes e corruptas, e fazem dos índios, dos pobres e marginalizados o bode expiatório dos problemas que elas mesmas criaram.
Para quem quiser saber um pouco mais sobre a questão indígena no estado, eu recomendo o livro de Paulo Santilli, Pemongon Patá: Território Macuxi, rotas de conflito, da Editora Unesp. Há também o site do Conselho Indígena de Roraima:
http://www.cir.org.br e do Instituto Socioambiental
http://www.socioambiental.org ?Quando eu penso em socialismo, eu penso numa sociedade de tecnologia muito avançada e com a cordialidade dos índios?.
?O brasileiro precisa aprender a ser índio, a ter amor às suas crianças, a criá-las com carinho, ensiná-las a ser gente?.
Darcy Ribeiro

